
Em 1980,
eu tinha ainda 15 anos, o o alvoroço da primeira visita do Papa ao Brasil mexeu
comigo. Eu queria participar de alguma forma e elaborei um plano de chegar perto
dele e prestar-lhe uma homenagem. Juntei-me então a um Grupo de escoteiros em
minha cidade, e procurei o apoio de alguns comerciantes para financiar minha
idéia. Queria mandar pintar um painel com a figura dele e que fosse elevado ao
céu por balões a gás. Meu irmão fez o desenho que ficou impecável sobre um
lençol, doado por minha mãe, e depois de visitar até o Arcebispo que nos deu um
cartão de apresentação, conseguimos estar no dia da chegada dele a cidade, entre
as equipes que prestavam serviços.
Depois
de dias e dias de preparativos, lá estava eu na Praça da Basílica de Nazaré, em
Belém minha cidade natal, desde cedo fazendo amizade com os seguranças e como
conhecia muito bem os corredores da igreja, pois minha mãe era professora de
religião, eu já tinha sido até coroinha uma vez em que faltou ajudante e
portanto tratei de passear por todos os labirintos escuros da igreja, querendo
mostrar serviço e testar até onde eu podia ir. Mas fui surpreendido com uma arma
em minha direção, de um dos seguranças da comitiva, que deitado no teto do sótão,
se posicionava para dar proteção ao Papa. Fui conduzido por eles até a porta
principal e a cada hora que se aproximava mais do momento da chegada dele ao
santuário, mais a multidão se aglomerava na praça, mais nervosas as pessoas
ficavam e menos espaço eu tinha aonde me locomover.
Estava tudo muito fácil pra
ser verdade. Me esqueci que ele além de Papa, ele era uma autoridade
internacional, um Chefe de Estado, e por isso não vinham só o papamovel, mas um
séqüito de seguranças uniformizados da presidência da república, policia
federal, exército, bombeiros, policia militar, cruz vermelha, e cada grupo
desses que chegava, ia formando um novo cordão de isolamento na praça, sufocando
e transformando em insignificante a presença dos nossos escoteiros no
isolamento. Lugar de destaque que eu tinha conseguido a minha tropa, sim, porque
mesmo em tão pouco tempo no Grupo, eu já liderava os que estavam ali, promovido
às pressas pelo Chefe Caetano, para fazer frente a minha iniciativa. Eles
aguardavam um sinal meu para soltar o painel e prestar a homenagem.
Eu me posicionara de maneira estratégica na escadaria central da igreja bem ao
lado de um segurança amigo que me permitiu ficar ali. As portas da igreja foram
fechadas, e os poucos convidados não podiam entrar nem sair. O esquema de
segurança era extremamente rigoroso, mas eu estava lá, a um passo do Arcebispo
que na porta da igreja, segurava a imagem da santa de Nazaré que seria abençoada
pelo papa. Mas os planos foram mudados em cima da hora, e o risco de um
descontrole da multidão, fez o secretario particular dele, Paul Marcinkus, (nome
que jamais esquecerei) ordenar que o papamovel seguisse em frente e nem parasse
na porta da Basílica, decepcionando os fiéis que lotavam as redondezas. Eu
permaneci ali, imóvel, olhando a mão dele acenar pra multidão e em nossa direção
sendo abençoados por ele, enquanto as pessoas revoltadas e atônitas queriam
invadir a igreja e os portões foram fechados.
Lembrei então do painel, olhei em volta e vi engatado numa samaumeira da praça.
Procurei minha turma de escoteiros e todos estavam dispersos. Tentei em vão,
gritando, pedir à equipe de tv que me devolvesse o painel que removiam dos
galhos da árvore. Voltei pra casa abatido, triste. Achei por um bom tempo que
meu esforço tinha sido em vão. Ainda fui algumas vezes aos escoteiros,
incentivado por nosso Chefe, que imaginou novas ações. Meu pai ainda me deu uma
viagem à Manaus de navio como consolo, com pena de ver nossos esforços em
vão.
Anos se passaram, exatos 25
anos. Hoje aos 40, lembro de tudo com felicidade o orgulho, porque sei que
realmente como disse meu pai, não foi em vão. Eu nem imaginara que naqueles dias
em minha adolescência, já ensaiando minha iniciativa e liderança, seriam
determinantes pra meu futuro nas atividades que depois passei a exercer,
promovendo eventos e campanhas filantrópicas e a desenvolver o projeto Bugaloo.
Sei que aquela benção me atingiu, e não somente agora, em que as atenções todas
se voltam a ele que partiu, mas muito antes, quando busco dedicar muito do meu
tempo ao serviço dos outros, buscando a felicidade e ser útil ao meu modo.
Não o vejo simplesmente
como o líder de uma igreja que faço parte, mas o admiro pelo esforço que fez em
continuar a frente de sua missão, ainda que debilitado pela doença e velhice, e
ainda que alguns digam ser prazeroso viajar, o que ele muito fazia, visitando e
levando sua mensagem às nações, porém não seria prazer a um mortal comum,
impossibilitado de ir a praia, passear e descansar quanto queira, sim, porque em
suas viagens, o que menos fazia era descansar. Agora sim. Descanse em paz.
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